Um elefante branco no meio da sala:FAPI.
Quando pequeno, eu sempre esperava chegar essa época do ano. Era demais ver toda aquela multidão, os animais, as roupas, as máquinas gigantes… Tudo era novidade, tudo era especial. A cidade mudava, as aulas começavam mais tarde no período da manhã, todo mundo ia comprar sua roupa especial. O parque, o cheiro, o frio, as famílias, a maçã do amor, o yakisoba… Era assim que eu via a FAPI quando era criança.
Na adolescência, o olhar já era diferente: era o momento de se encontrar e encontrar alguém legal. Todos os jovens estavam lá, experimentando alguma coisa. Parecia que a cidade dobrava de tamanho com tanta gente. Também tinham os shows: a galera do rock dos anos 90 e 2000, MPB, samba, sertanejo. Às vezes, a gente ia só para ver aquele artista que só conhecia pela televisão.
Agora, como adulto, a percepção já é outra. A inocência da criança feliz com a festa dá lugar a um olhar mais crítico sobre a cultura e a tradição. A FAPI — Feira Agropecuária e Industrial de Ourinhos —, tradição cultural da cidade, também mudou. Já não é mais a mesma, e tudo indica o seu fim. Aquela que já foi uma das três maiores feiras de portões abertos do Brasil.
Falar da FAPI pode ser complexo, pois existe uma relação de “amor e ódio”. Todas as críticas são relevantes e realistas: a questão dos maus-tratos aos animais, o valor da festa para a população, a segurança, entre outras. Mas é justamente com todas essas contradições que ela faz parte da cultura e da tradição de Ourinhos.
A festa movimentava — hoje já não movimenta mais — milhões de reais: venda de máquinas, negócios agropecuários, compras no comércio local, hotéis, restaurantes e o comércio informal. Sua decadência não começou hoje; começou com as divergências políticas locais sobre sua forma de financiamento e realização, ainda na década de 2010. Depois veio a tentativa frustrada de cobrar ingresso para os shows. Tiveram que abrir os portões para o povo, pois o artista não iria tocar para apenas 200 pagantes.
Desse período até os dias atuais, a festa perdeu totalmente sua característica inicial. Já em 2025, ela foi “épica”. Tão épica que apareceu na TV, mas não pela sua beleza ou tradição, e sim pelo escândalo de suposto enriquecimento ilícito daqueles que deveriam cuidar da cultura e da tradição.
Por fim, a FAPI é apenas mais uma amostra de como os diversos gestores da cidade cuidam da cultura e das tradições do povo ourinhense. A cultura é uma das pastas com menor orçamento; não há um conselho de cultura que fiscalize suas ações, o que fragiliza ainda mais o uso da verba cultural. Neste ano, já não se sabe sequer se a festa irá acontecer. E, se acontecer, infelizmente já não se parece mais com “aquela FAPI”. Está muito mais para um espantalho, um elefante branco no meio da sala.