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Editorial & Opinião

Espaço dedicado a reflexões, análises críticas e debates sobre o panorama das políticas públicas e a produção cultural em Ourinhos.

16 de junho de 2026

A Burocracia e a Resistência

Um relato sobre a luta pela cultura em Ourinhos

O café esfria na xícara enquanto a tela do computador brilha com mais uma aba do Diário Oficial. Se alguém me dissesse, anos atrás, que a rotina de quem faz arte em Ourinhos seria engolida por protocolos, leis de acesso à informação e contagens regressivas, eu talvez tivesse rido.

Mas a piada, hoje, tem um gosto amargo.

Nós respiramos cultura, mas a gestão nos obriga a respirar burocracia. Sentar naquela mesa de reunião ontem foi como assistir a uma peça cujo roteiro a gente já conhece de cor. O cenário é sempre o mesmo: a sala refrigerada, as palavras medidas, as justificativas que dão voltas e sempre terminam no colo da "Procuradoria" ou do "Setor de Compras". Eles nos pedem paciência e compreensão; nós só queremos o preto no branco, a execução do que é nosso por direito.

É exaustivo ter que explicar o óbvio. Ter que lembrar que a cultura não é a sobra do orçamento (aquele 1% que mal nos enxerga), não é o enfeite para o final de semana ou um palco feito no improviso. São famílias, são professores, são artistas que não têm o luxo de esperar o "tempo da gestão". O dinheiro da Política Nacional Aldir Blanc está na conta. O nosso Teatro Municipal segue de portas fechadas, testemunhando o silêncio de um ano de promessas vazias. O Conselho Municipal de Cultura é uma lei aprovada que imploramos para ser executada. O que temos hoje é a morosidade travestida de política pública.

Mas se tem algo que eles subestimaram, foi a nossa capacidade de organização. Eles acham que o artista vive só no holofote, no lúdico, mas nós aprendemos a jogar o jogo deles. Construímos o Observatório Cultural, estruturamos as nossas demandas em ofícios, unimos o teatro, a música, o hip hop e as guerreiras da Feira da Resistência. Não somos mais vozes isoladas gritando na praça; somos um coro afinado, documentado e com protocolo em mãos.

Nós não vamos recuar porque eles disseram que "não vão conseguir responder no prazo". O relógio legal está correndo e o dia 30 de junho é o limite. O papel está carimbado, e a lei não aceita "veja bem" ou "estamos resolvendo". Se a tática deles é nos vencer pelo cansaço, esqueceram com quem estão lidando. A arte, por sua própria essência, sobrevive e resiste. E nós continuaremos em cena, incansáveis, até que a cultura de Ourinhos volte para as mãos de quem realmente a faz pulsar.

Brisa Kalene

OB
Observatório da Cultura
Ourinhos-SP
25 de maio de 2026

Um elefante branco no meio da sala:FAPI.

Quando pequeno, eu sempre esperava chegar essa época do ano. Era demais ver toda aquela multidão, os animais, as roupas, as máquinas gigantes… Tudo era novidade, tudo era especial. A cidade mudava, as aulas começavam mais tarde no período da manhã, todo mundo ia comprar sua roupa especial. O parque, o cheiro, o frio, as famílias, a maçã do amor, o yakisoba… Era assim que eu via a FAPI quando era criança.

Na adolescência, o olhar já era diferente: era o momento de se encontrar e encontrar alguém legal. Todos os jovens estavam lá, experimentando alguma coisa. Parecia que a cidade dobrava de tamanho com tanta gente. Também tinham os shows: a galera do rock dos anos 90 e 2000, MPB, samba, sertanejo. Às vezes, a gente ia só para ver aquele artista que só conhecia pela televisão.

Agora, como adulto, a percepção já é outra. A inocência da criança feliz com a festa dá lugar a um olhar mais crítico sobre a cultura e a tradição. A FAPI — Feira Agropecuária e Industrial de Ourinhos —, tradição cultural da cidade, também mudou. Já não é mais a mesma, e tudo indica o seu fim. Aquela que já foi uma das três maiores feiras de portões abertos do Brasil.

Falar da FAPI pode ser complexo, pois existe uma relação de “amor e ódio”. Todas as críticas são relevantes e realistas: a questão dos maus-tratos aos animais, o valor da festa para a população, a segurança, entre outras. Mas é justamente com todas essas contradições que ela faz parte da cultura e da tradição de Ourinhos.

A festa movimentava — hoje já não movimenta mais — milhões de reais: venda de máquinas, negócios agropecuários, compras no comércio local, hotéis, restaurantes e o comércio informal. Sua decadência não começou hoje; começou com as divergências políticas locais sobre sua forma de financiamento e realização, ainda na década de 2010. Depois veio a tentativa frustrada de cobrar ingresso para os shows. Tiveram que abrir os portões para o povo, pois o artista não iria tocar para apenas 200 pagantes.

Desse período até os dias atuais, a festa perdeu totalmente sua característica inicial. Já em 2025, ela foi “épica”. Tão épica que apareceu na TV, mas não pela sua beleza ou tradição, e sim pelo escândalo de suposto enriquecimento ilícito daqueles que deveriam cuidar da cultura e da tradição.

Por fim, a FAPI é apenas mais uma amostra de como os diversos gestores da cidade cuidam da cultura e das tradições do povo ourinhense. A cultura é uma das pastas com menor orçamento; não há um conselho de cultura que fiscalize suas ações, o que fragiliza ainda mais o uso da verba cultural. Neste ano, já não se sabe sequer se a festa irá acontecer. E, se acontecer, infelizmente já não se parece mais com “aquela FAPI”. Está muito mais para um espantalho, um elefante branco no meio da sala.

Marcelo de Souza Pereira

OB
Observatório da Cultura
Ourinhos-SP
19 de maio de 2026

Trabalhador da Cultura: arte, trabalho e resistência

Ser trabalhador da cultura é transformar talento, estudo e dedicação em arte, conhecimento e geração de renda. São artistas, técnicos, produtores, educadores e agentes culturais que, por meio das sete artes, movimentam a economia criativa e fortalecem a identidade cultural da nossa sociedade.

Em Ourinhos, os trabalhadores da cultura seguem exercendo seu ofício com empenho e resistência, mesmo diante das dificuldades e da falta de apoio adequado. Fazer cultura sem incentivo é um desafio constante, mas ainda assim esses profissionais continuam produzindo, formando público e levando arte para toda a comunidade.

É importante lembrar que foi prometida pela Prefeitura de Ourinhos e pela Secretaria Municipal de Cultura a abertura do edital da PNAB 2026 no mês de abril. Até o momento, essa promessa ainda não foi cumprida. O cumprimento desse compromisso representa respeito aos profissionais da cultura e reconhecimento da importância do seu trabalho para o desenvolvimento social, econômico e cultural do município.

A cultura é trabalho. A cultura gera renda, empregos e oportunidades. A cultura educa, inspira e transforma realidades.

Valorizar o trabalhador da cultura é investir no futuro da cidade e garantir que a arte continue cumprindo seu papel essencial na construção de uma sociedade mais humana, criativa e consciente.

Marcelo de Souza Pereira

OB
Observatório da Cultura
Ourinhos-SP