A Burocracia e a Resistência
Um relato sobre a luta pela cultura em Ourinhos
O café esfria na xícara enquanto a tela do computador brilha com mais uma aba do Diário Oficial. Se alguém me dissesse, anos atrás, que a rotina de quem faz arte em Ourinhos seria engolida por protocolos, leis de acesso à informação e contagens regressivas, eu talvez tivesse rido.
Mas a piada, hoje, tem um gosto amargo.
Nós respiramos cultura, mas a gestão nos obriga a respirar burocracia. Sentar naquela mesa de reunião ontem foi como assistir a uma peça cujo roteiro a gente já conhece de cor. O cenário é sempre o mesmo: a sala refrigerada, as palavras medidas, as justificativas que dão voltas e sempre terminam no colo da "Procuradoria" ou do "Setor de Compras". Eles nos pedem paciência e compreensão; nós só queremos o preto no branco, a execução do que é nosso por direito.
É exaustivo ter que explicar o óbvio. Ter que lembrar que a cultura não é a sobra do orçamento (aquele 1% que mal nos enxerga), não é o enfeite para o final de semana ou um palco feito no improviso. São famílias, são professores, são artistas que não têm o luxo de esperar o "tempo da gestão". O dinheiro da Política Nacional Aldir Blanc está na conta. O nosso Teatro Municipal segue de portas fechadas, testemunhando o silêncio de um ano de promessas vazias. O Conselho Municipal de Cultura é uma lei aprovada que imploramos para ser executada. O que temos hoje é a morosidade travestida de política pública.
Mas se tem algo que eles subestimaram, foi a nossa capacidade de organização. Eles acham que o artista vive só no holofote, no lúdico, mas nós aprendemos a jogar o jogo deles. Construímos o Observatório Cultural, estruturamos as nossas demandas em ofícios, unimos o teatro, a música, o hip hop e as guerreiras da Feira da Resistência. Não somos mais vozes isoladas gritando na praça; somos um coro afinado, documentado e com protocolo em mãos.
Nós não vamos recuar porque eles disseram que "não vão conseguir responder no prazo". O relógio legal está correndo e o dia 30 de junho é o limite. O papel está carimbado, e a lei não aceita "veja bem" ou "estamos resolvendo". Se a tática deles é nos vencer pelo cansaço, esqueceram com quem estão lidando. A arte, por sua própria essência, sobrevive e resiste. E nós continuaremos em cena, incansáveis, até que a cultura de Ourinhos volte para as mãos de quem realmente a faz pulsar.
Brisa Kalene